segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

CENOTÁFIOS – na sé de Faro e de Silves

Capela das relíquias ou do Santo Lenho, na Sé de Faro,
onde se encontra à direita o cenotáfio do Bispo
D. António Pereira de Lacerda
Trata-se de um monumento fúnebre, geralmente uma arca tumular, um mausoléu individual ou colectivo, erigido em memória de alguém cujos restos mortais não foi possível recolher, que repousam noutro local, ou cujo paradeiro se desconhece. Por extensão também se designam como cenotáfios os túmulos desocupados, pois que muitas vezes aconteceu que alguém, com poder político ou económico, mandou construir o seu próprio mausoléu, contando nele vir a ser sepultado, mas que por força de circunstâncias diversas, não chegou a acontecer. Existem túmulos, que se tornaram em involuntários cenotáfios pelo facto dos corpos a que se destinavam repousarem noutro país ou noutro continente, de onde não podem ser resgatados. Pior ainda é quando se desconhece o local exacto onde pereceram, como acontecia nas guerras, em que os corpos eram soterrados em valas comuns, ou nos naufrágios marítimos em que os corpos nunca puderam ser recuperados. Em certos locais de batalha, cujos campos se transformaram em cemitérios incógnitos, erigiram monumentos em memória dos que ali pereceram, os quais tendo a simbologia de uma perpétua homenagem fúnebre, podem também ser considerados como cenotáfios.
Nesta imagem vê-se bem, à direita, o túmulo vazio (cenotáfio)
do bispo do Algarve, D. António Pereira de Lacerda, Na foto
 vêm-se os relicários nos nichos laterais da capela.
Um dos casos mais curiosos – razão pela qual escrevo este pequeno apontamento – é o do túmulo construído pelo Bispo do Algarve D. António Pereira da Silva, que governou a diocese entre 1704 e 1715, sendo aqui tão feliz que, na antiga Capela do Santo Lenho da Sé de Faro, mandou construir o seu próprio túmulo na expectativa e desejo de nele vir a ser sepultado. Acho que essa capela está actualmente sob a invocação de São Francisco de Paula, sendo que originalmente se designava como «Capela das Relíquias». Confesso que já nem sei bem qual a sua designação mais apropriada, mas isso também de pouco interessa, pois que sendo a mais bela e imponente de todas as preenchem a nave lateral direita da histórica Sé de Faro é muito fácil de a encontrar, visto ser a única que no Algarve apresenta um retábulo em forma de relicário, cujas paredes revestidas de pequenos nichos, que parecem ostiários, são como que sacrários da nossa hagiolatria.
Aproveito, a oportunidade para dizer que este António Pereira de Lacerda, era fidalgo de conceituados pergaminhos, filho de Francisco Pereira da Silva, senhor da casa de Bretiandos (cujo solar conheço muito bem, sendo hoje local de admiração turística da Ribeira Lima) e de D.ª Joana de Noronha, que era filha do célebre Damião de Sousa Menezes, senhor de Francemil. No meu norte natal, esta gente pertence às melhores cepas da sociedade tradicional portuguesa. Não admira, pois, que a família se preocupasse com a sua educação e destino. E na verdade, o futuro bispo do Algarve em breve se tornaria num homem de grande erudição. Estudou Teologia na Universidade de Coimbra, onde recebeu o grau de doutor e a beca do Real Colégio de São Paulo, honraria só ao alcance dos melhores. Dali seguiu para a diocese de Évora, onde foi cónego magistral da Sé e, por inerência, dignitário da Inquisição local, cuja jurisdição persecutória do judaísmo superintendia por todo o Alentejo e Algarve. Depressa a sua erudição, zelo e competência o tornaria conhecido e celebrado, a ponto do rei D. Pedro II o nomear bispo de Elvas, entre 1701 e 1704, e secretário de estado das Repartições e Mercês, o equivalente hoje a ministro. No início do século XVIII, as remessas do ouro do Brasil –  embora fossem apenas um quinto do total minerado – deram um novo folgo às rendas da coroa, permitindo-lhe ser mais magnânima para com os seus servidores e mais faustosa nas suas obras de benemerência pública. A Igreja foi a principal beneficiada, sendo o Convento de Mafra e sobretudo o estilo barroco, com a sua exuberante talha dourada, a fundamental evidência prática do ouro do Brasil.
O nosso D.António Pereira de Lacerda, em 1704, via-se promovido a bispo do Algarve, encarregando-se pessoalmente de restaurar os principais templos da diocese, aprimorando os retábulos e capelas interiores mercê da contratação de artistas e entalhadores, nacionais e estrangeiros, sendo disso principal exemplo a Sé de Faro. Para além da recuperação e restauro, coube-lhe também a honra de ter iniciado a construção da Igreja do Carmo em Faro, que é uma das mais belas e imponentes de todo o Algarve.
Como erudito e estudioso das nossas antigualhas históricas, dedicou-se à escrita, primeiro de forma institucional para uso restrito da diocese algarvia, depois mais mundana para divulgação dos seus pergaminhos familiares e dos seus colaterais genealógicos. Assim, conhecedor das suas origens nobiliárquicas, e de muitos dos seus parentes e conterrâneos, dedicou-se à investigação genealógica das principais famílias originárias da Província de Entre Douro e Minho, cujos escritos serviram de fonte à grandiosa obra de Manuel Caetano de Sousa, História Genealógica da Casa Real Portuguesa. No arquivo histórico do bispado do Algarve ainda encontrei vários livros da sua lavra, com apontamentos pessoais e intransmissíveis sobre coisas que se passavam na diocese e que se deveriam manter em segredo. São os chamados livros negros, encadernados nessa cor, por serem reservados aos olhares estranhos. Digo-vos que neles li algumas coisas que já sabia, e outras que julgo nunca deveriam ter sido escritas…
Interior da Igreja do Carmo, em Faro, mandada construir
 pelo bispo D. António Pereira de Lacerda em 1713.
O bispo D.António Pereira da Silva, embora morresse em Faro, em 1715, acabaria por não ser sepultado no sumptuoso túmulo que construíra na Capela do Santo Lenho ou das Relíquias, encontrando-se os seus restos mortais ainda hoje depositados na cripta subterrânea da Sé de Faro. As razões para o sucedido prendem-se com um imbricado processo judicial que, em vida e mesmo para além da morte, manteve em acesa discussão nos tribunais, por causa dos bens familiares de que deveria ter sido ressarcido em partilhas. O caso arrastou-se nas pendências da justiça, e a capela que estava a construir na Sé – na qual se inserira o mausoléu em que o seu féretro deveria ter sido depositado – não a concluiu em vida, e nem mesmo o sobrinho D. José Pereira de Lacerda, que lhe sucedeu na cadeira episcopal de Faro, conseguiu resolver a contenda familiar que se arrastou nos tribunais durante anos a fio.
De entre os manuscritos da sua autoria permita-se-me destacar o «Livro para me regular no governo do Bispado», lavrado numa caligrafia muito harmoniosa e escorreita, de fácil leitura, que se encontra depositado no arquivo eclesiástico de Faro, no qual se podem colher preciosos informes sobre a vida do bispado nos primeiros anos do século XVIII.
Acresce dizer que o vocábulo cenotáfio vem do Grego Kenotaphion, que presumo ter dado origem em Latim à palavra Coenotaphium, que significa túmulo ou monumento sepulcral, erigido em memória de alguém, cujos restos mortais não se encontram ali depositados.
Existem vários casos destes, nomeadamente no Panteão Nacional, nos Jerónimos e em variadíssimas igrejas nacionais. Lembro por exemplo o túmulo de D. João II, na Sé de Silves, cujos restos mortais foram pouco depois trasladados para o Mosteiro da Batalha. Ainda lá está, no chão da nave central, em frente ao sacrário do retábulo-mor, o túmulo do grande rei a quem chamaram o Principe-Perfeito, autor do grandioso projecto nacional dos Descobrimentos, através do qual se perpectuaria o nome de Portugal pelos cinco continentes de um mundo que as caravelas lusas ajudaram a revelar, fortalecendo os laços de comunhão entre a civilização ocidental e o cristianismo.
Em jeito de encerramento, lembro que os cenotáfios estavam entre os principais monumentos que embelezavam a chamada Via Ápia, que era a principal estrada de acesso a Roma. Os grandes generais, legionários e tribunos, que não regressavam à pátria por terem caído heroicamente nos campos de batalha, eram homenageados em aras fúnebres, consagradas sob a designação de «cenotaphium», mas também de «tumulus honorarious» ou simplesmente de «inanis», que eram singelas placas com a inscrição do homenageado.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Descrição da cidade de Faro, em contraposição à vila de Loulé, para sede do Tribunal da Relação do Algarve.


Nos finais de 1827, o governo da Regência da Infanta D.ª Isabel Maria de Bragança, decidiu fazer uma nova divisão do território nacional, ou seja, uma reforma da estrutura administrativa e um novo reordenamento da justiça em Portugal. É claro que estas reformas surgiam na esteira dos novos ventos do liberalismo, que assolavam praticamente toda a Europa. O problema é que essas reformas surgiam pela mão de burocratas e políticos ignorantes, incapazes de avaliarem a realidade social e económica das populações que compunham o território nacional.
Panorâmica da cidade de Faro, nos finais do séc. XIX.
Nesse projecto de lei surgia a escolha da vila de Loulé para sede do Tribunal da Relação do Algarve, em detrimento da cidade de Faro, que seria a escolha mais óbvia. Naturalmente havia nisto alguma influência política, o que levou o deputado Rodrigo de Sousa Castello Branco, representante do Algarve no parlamento, a insurgir-se contra essa escolha/decisão, sustentando a preferência de Faro em detrimento daquela vila algarvia. Para o efeito teceu em pleno parlamento uma descrição comparativa das potencialidades que as distinguiam e diferenciavam, sustentando que a escolha deveria recair em Faro: por ser mais rica, mais comercial, mais culta e mais provida de serviços públicos, além de ser a sede do bispado e, por isso, tida como a capital religiosa de todo o reino do Algarve. Em face do interesse histórico, passamos a transcrever a sua apreciação argumentativa, conservando-lhe a grafia original:
«Faro, cidade rica e commerciante, Capital Ecclesiastica do Algarve, centro de concorrencia de todos os povos da Provincia, he precisamente o local que convem para o assento da nova Relação. O provinciano vai a Faro de terras muito distantes fazer alli provimentos para as suas lojas e para generos e fazendas precisas ao seu proprio consumo; vai outro a Faro tratar negocios no Juizo Ecclesiastico que alli se acha estabelecido; outro vai tratar sobe as pingues rendas da Mitra e Cabido que abrangem todas as terras do Algarve. Por esta forma, Faro he ponto de concorrencia de muita gente de todo aquelle reino: acha-se alli com facilidade quem forneça os dinheiros precisos sobre ordens ou letras que para isso se apresentam e que melhor pode escolher-se no Algarve para assento da Relação?»
Foto da rua principal de Loulé, frente ao mercado municipal,
que presumo datar dos inícios do século XX.
Por outro lado, acrescentava que a vila de Loulé «absolutamente não convém, porque não ha para lá correspondencias algumas, he uma terra de sertão, sem commercio, sem offerecer motivo de concorrencia e portanto quem alli for tratar de huma demanda irá a isso, mas só a isso, e então quanta deficuldade de encontrar alli dinheiros! He huma terra de proprietarios, entre estes alguns ha ricos de bens, porém pobres de dinheiro; não ha capitalistas nem negociantes. Por conseguinte optando entre Faro e Loulé a preferencia he inquestionavelmente devida a Faro».
Os argumentos do deputado Rodrigo de Sousa Castello Branco, foram ouvidos e votados favoravelmente na sessão parlamentar de 19-1-1828, decidindo-se que passariam a existir sete províncias e seis Relações de Justiça, sendo aprovado que o Tribunal da Relação do Algarve ficaria sediado em Faro e não em Loulé. A «Gazeta de Lisboa», nº 18 de 21-2-1828, publicou o projecto de criação da nova reforma administrativa, que julgo não chegou propriamente a entrar em vigor, pois que a Regência da Infanta Dª Isabel Maria de Bragança cessaria logo depois em 26 de Fevereiro de 1828, não tardando a chegar D. Miguel que pelas cortes de 11 de Julho de 1828 seria entronizado rei de Portugal. Iniciava-se o período da usurpação e das perseguições políticas contra os defensores do liberalismo de que resultaria um forte surto emigratório para a Europa e por fim para os Açores, onde os liberais concentrariam força para organizar a resistência e formar o “exército libertador”, que desembarcado na cidade do Porto deu sustento à guerra civil de 1832-34. Para o desfecho das lutas civis e consequente vitória da causa liberal muito contribuiu o Algarve, cuja posição geo-estratégica justificaria a sua invasão pelas tropas do Duque da Terceira, que não encontrando oposição reorganizaria as suas forças e daqui tomaria a estrada para Lisboa onde entraria vitorioso no dia 24 de Julho de 1834.
Não obstante o decurso do tempo nem o desenrolar da história, creio que se fosse hoje a escolha de Faro em detrimento de Loulé, embora não ofereça dúvidas, também não seria pacífica nem livre de polémica.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Subsídios para a História Eclesiástica do Algarve - Um Catálogo dos Bispos de Silves

Este Catálogo mais não é do que uma breve relação dos Bispos da Sé de Silves; mas cumpre acrescentar que o seu primordial interesse reside na comprovação documental da existência da conhecida contenda entre o rei de Castela e D. Afonso III respeitante à nomeação dos prelados silvenses, assim como a presença das suas assinaturas em vários diplomas de escrituras, doações e mercês, cuja citação constitui uma fonte de indesmentível importância para o estudo da História Eclesiástica do Algarve. Por outro lado, apercebi-me de que a maioria dos documentos aí referidos pertence ao Arquivo do Mosteiro de S. Cruz de Coimbra e ao Arquivo Nacional da Torre do Tombo, para além de serem citadas várias obras clássicas da historiografia ibérica. Tudo isto dava a entender que o seu autor seria um investigador erudito e bastante cuidadoso. Rapidamente me apercebi de que não me enganava ao verificar que a assinatura pertencia ao historiador Frei Manoel dos Santos, um dos mais notáveis intelectuais do seu tempo.
O presente manuscrito que ora se dá a público, pela primeira vez, compõe-se de quatro folhas, preenchidas no rosto e verso, numeradas de fls. 112 a 115 do códice 152 depositado na B. N. L., pertencente ao espólio da antiga Academia Real da História Portuguesa. 

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

AS PRIMÍCIAS JORNALÍSTICAS DE MESTRE AQUILINO RIBEIRO NA VILA DE OLHÃO

Poucos saberão certamente que o escritor Aquilino Ribeiro fez as suas primícias de publicista emérito no Algarve, mais precisamente na vila de Olhão, tendo escolhido para palco da sua estreia jornalística o semanário «O Cruzeiro do Sul», fundado e dirigido por José Marques Corpas Centeno, dedicado secretário da edilidade local e notável publicista. Trata-se de um pormenor biográfico, frequentemente descurado, que à primeira vista poderá parecer irrelevante mas que, no fundo, assume particular interesse para o roteiro literário e estilístico do autor do Malhadinhas. Por outro lado, constitui um elemento de insofismável orgulho para a História da Imprensa Algarvia, que de forma alguma se poderá desdenhar, sob pena de incorrermos num verdadeiro atentado à memória daquele que muito justamente se considera como o maior romancista português do século XX.

UMA VIAGEM ATRAVÉS DA LUZ

Este livro gira em torno duma espécie de viagem cósmica impulsionada à velocidade da luz pela força da palavra. A ideia incomensurável do universo físico está patente neste livro através da persistente alusão aos seus elementos constituintes, com particular acinte na luz solar, fonte e gérmen de vida, nos astros que integram o nosso sistema astronómico (estrelas, cometas, planetas, quasares), assim como nas figuras que compõem o nosso universo mítico, como a fénix, a cobra alada, a pedra filosofal, os grifos das trevas e os cavaleiros do apocalipse, os mitos da Esfinge, de Andrómeda e de Prometeu, enfim toda uma panóplia de aparente fantasia científica, que aqui é tratada e transmitida de forma etérea na volatilidade do verso poético.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

A «CHRONICA DO ALGARVE» terá sido o primeiro jornal algarvio?

O jornal que inaugurou a imprensa algarvia chamava-se «Chronica do Algarve», nasceu por ocasião da Invasão pelas tropas liberais do Duque de Terceira, cuja quartel-general se estabeleceu em Faro. Publicou-se no dia 15 de Julho de 1833, e anunciava-se como órgão oficial do partido constitucionalista de D. Pedro, Regente e futuro Rei de Portugal. Dado que os liberais receavam a oposição militar e popular desta província editaram a «Chronica do Algarve» para informar o povo, e principalmente a burguesia, acerca do poderio do exército da Rainha e dos seus êxitos no campo de batalha. Por outro lado, serviria como elemento de propaganda das novas ideias e como veículo de recrutamento de efectivos militares para as fileiras do exército liberal. 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Tavira, o Marquês de Pombal e a Fábrica de Tapeçarias

A acção política do Marquês de Pombal na 2ª metade do séc. XVIII teve como objectivo a centralização do poder no Estado-Pessoa. Porém, quase em simultâneo, desenvolveu iniciativas de fomento económico que contribuíram para um vasto programa de reformas, quer na organização da administração pública, quer no ordenamento social, introduzindo ideias e projectos que se assemelham, em certa medida, à revolução iluminista. O fomento industrial foi um dos sectores de maior sucesso e de grande dinamismo económico durante o consulado Pombalino. A cidade de Tavira foi contemplada com o apoio à instalação de uma unidade fabril dedicada à produção de tapeçarias. Todavia, razões de vária ordem, nomeadamente o afastamento do Marquês do governo, contribuíram para o insucesso mercantil e encerramento desta unidade fabril, única em toda a História do Algarve.

FARO E O MOVIMENTO DO ORFEU

Faro foi a única cidade de província a dar cobertura e apoio ao movimento futurista liderado por Fernando Pessoa, Mário Sá-Carneiro e Almada Negreiros. É esse o principal aspecto focado nesta comunicação, para além de ser lembrado que Fernando Pessoa viveu em Tavira, em casa de sua tia cujo imóvel bem merecia a colocação de uma placa evocativa da passagem pelo Algarve de um dos maiores poetas da cultura portuguesa. Será igualmente analisado o papel do semanário «O Heraldo», dirigido pelo pintor Lyster Franco na cidade de Faro e recordada a colaboração do artista Carlos Porfírio, director da revista «Portugal Futurista», de Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Sá-Carneiro e de vários outros jovens algarvios. De salientar que o último sobrevivente do Movimento Futurista Português foi um algarvio, o Dr. Mário Lyster Franco, falecido em 1984.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

FLORBELA ESPANCA NA VILA DE OLHÃO

Na vida de Florbela Espanca existem muitos pontos obscuros (ou menos esclarecidos), que apenas se afloraram sem, contudo, se ousar penetrar no âmago ou na essência das razões que os originaram. A permanência da poetisa em terras do Algarve é um dos trajectos biográficos mais ignorados pelos investigadores, ensaístas e historiadores da nossa cultura. Talvez o facto dessa estadia ter sido curta, transitória e efémera, explique o pouco interesse da investigação. Talvez o facto do Algarve ser uma região predestinada para o turismo tenha levado os estudiosos a supôr que Florbela demandou estas paragens apenas por motivos de lazer. Mas também há quem por falso pudor, imaculando a figura literária de Florbela, procure ignorar essa presença, sabendo de antemão que ela se ficou a dever ao definitivo encerramento das suas naturais expectativas de mulher-mãe.
[ofereço a todos os meus leitores a oportunidade de fazerem o download gratuito deste meu opúsculo sobre a estadia de Florbela Espanca em Quelfes, o qual é muito raro de encontrar, por se ter esgotado pouco depois de ter vindo a público em 1996]

Um presépio napolitano do século XVIII no museu paroquial de Moncarapacho

Este presépio napolitano, cuja autoria julgo pertencer a Giuseppe Sammartino, é composto por 45 peças (onze das quais são representações animalistas), propriedade da riquíssima casa Júdice Fialho, grande impulsionadora da indústria conserveira e do comércio português além fronteiras, que após o seu desmoronamento, suscitado pelas consequentes partilhas da fortuna, acabou por ir parar às mãos do Asilo de Santa Isabel, em Faro, mercê de uma doação feita, ainda em vida, pela viúva daquele famoso industrial. Durante largos anos, por altura dos festejos natalícios, este esplendoroso conjunto artístico foi reunido e exposto ao público, que, deste modo, pôde apreciar «in-loco» a riqueza, o talhe e a expressão das encantadoras figuras. Mas o correr dos tempos associado ao desconhecimento do valor das próprias peças permitiu que o desleixo fosse generalizado e que o abandono originasse, progressiva e irreversivelmente, um processo de desagregação que levou inclusivamente à destruição de algumas peças.

sábado, 20 de setembro de 2014

Manuel de Arriaga e a República

Personalidade relevante, com um carácter antidinástico a todos os títulos notável, Manuel de Arriaga procurou esforçadamente, logo após o 5 de Outubro de 1910, a conciliação de todos os portugueses com o novo regime acabado de implantar. A República era encarada, na época, como a «cura de todos os males de que enfermava a Nação», e esse era o ideal, e a esperança, do velho tribuno republicano. «Tendo passado toda a vida a procurar a República foi procurado por ela para seu Procurador», no Verão de 1911, sendo então eleito como primeiro Presidente da República Portuguesa. Era a justa homenagem prestada ao mais ancião dos republicanos. Todavia, a incompreensão dos políticos e o clima de desordem partidária, que se fez sentir com o desmembramento do Partido Republicano Português (PRP), ditaram o seu afastamento da presidência da Nação, depois de ter sido considerado traidor e fora-da-lei por destacados vultos da vida política nacional.
(Publiquei este artigo na revista «História», nº 42, em Abril de 1982. Já nem me lembrava da sua existência, se mão amiga não me tivesse oferecido um exemplar de que extratei o texto que abaixo se insere, para uso de estudantes e investigadores da nossa infeliz e malfadada República).

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Forte de Cacela e de Santo António de Tavira, extintos em 1794


retrato do Conde Schaumburg-Lippe
Talvez poucos historiadores algarvios saibam deste pormenor. Quando o Conde Schaumburg-Lippe (1724-1777) fez a notável inspecção, em 1764, ao equipamento defensivo da linha costeira do Algarve, em cujo inspecção aparece a célebre frase em que considera o Algarve "hum pedaço do Paraizo Terrestre", aconselhou o Marquês de Pombal a proceder à reconstrução de vários fortes, fortalezas e revelins, que asseguravam a defesa militar da costa algarvia. Pelo pormenor, mas também pela eloquência desse relatório (inspecção), merece uma leitura atenta por quem estuda o Algarve no séc. XVIII, mas também mereceria uma publicação, em futura «Monumenta Historica Algarbiensis», uma quimera que ilustres historiadores, como António Baião [que tinha sangue algarvio] e Alberto Iria, sustentaram durante anos sem qualquer sucesso. Eu já a li na «Colecção Pombalina» (contém 756 códices manuscritos) da BNP, e posso dizer que é uma fonte de primeira grandeza. Curiosamente, tinha anotações talvez de Pedro de Azevedo, embora desconfie que por lá andou também o escritor Júlio Dantas, que foi um grande divulgador da nossa história.
Retomando o fio à meada, o Marquês de Pombal ciente dos escassos recursos do Tesouro Público (actual Ministério das Finanças) mandou arquivar o relatório do Conde Lippe, para posterior reapreciação. No reinado seguinte, de D. Maria I, período designado por "Viradeira" visto ser marcado pela política retrógrada do absolutismo, uma das soluções usadas para evitar o aumento da despesa pública, por via da restauração dos fortes militares da linha costeira, foi o encerramento de alguns desses equipamentos militares. Entre eles, figuram os Fortes de Cacela e de Santo António do Rio, em Tavira, a que o vulgo chamava Forte do Rato, cuja decadência só viria a ser travada quase dois séculos depois, para servirem de aquartelamento às forças de vigilância e de inspecção fiscal.
Forte de Cacela
Quando o capitão-de-mar-e-guerra Lourenço Germach Possolo passou pela costa algarvia, no último cartel do século XIX, considerou que a maioria das fortalezas algarvias, nomeadamente a de Sagres, estavam na triste condição de "pardieiros". O abandono dos monumentos históricos no nosso país era endémico, vinha de longa data, e contrastava lamentavelmente com o que ocorria noutros países, nomeadamente em Itália, onde o espírito romântico da época e o crescente fervor nacionalista lançara uma onda de recuperação e restauro dos monumentos e edifícios históricos.
Para os possíveis interessados aqui deixo a referência bibliográfica do edital publicado em 1794, que pode ser consultado nas bibliotecas da Academia das Ciências, da Ajuda, da BNP e outras:
Forte de Santo António, vulgo Forte do Rato, em Tavira

Edital.- "Sua Magestade foi servida ordenar por Aviso do Secretario de Estado Luiz Pinto de Sousa, de sinco do corrente mez de Março, se faça público, que os Governos das Fortalezas de Cassella, e Santo Antonio do Rio, da Cidade de Tavira, Reino do Algarve, se achão extinctos, e abolidos para já mais se poderem pertender. Lisboa treze de Março de mil setecentos noventa e quatro- Francisco Xavier Telles de Mello (Lisboa): Na Officina de Antonio Rodrigues Galhardo, 1794.-1 folha; 29cm.-B.
J.C. Vilhena Mesquita

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Coutos e terras de degredo no Algarve

Este pequeno trabalho de investigação pretende dar a conhecer uma realidade pouco divulgada entre a comunidade científica, que consiste na preservação das terras de degredo mais de um século depois de terem sido extintos os Coutos de homiziados em Portugal. Esta situação, no caso aqui revelado, pode justificar-se pelo retomar do regime absolutista com D. Miguel, mas também pela necessidade de repovoamento do território nacional. Importa não esquecer que o Algarve, e muito particularmente a vila de Castro Marim, foi uma das primeiras regiões do país a receber cartas de Couto para obstar ao fenómeno socioeconómico do ermamento e, desse modo, operar ao forçado repovoamento da raia fronteiriça no Guadiana. Os documentos aqui transcritos reforçam também a ideia de que o Algarve, pela sua extremada posição geográfica foi sempre terra de degredo e exílio. Basta lembrar, que ainda no regime deposto de Salazar, o filósofo Agostinho da Silva, em 1943, foi compelido a exílio interno, sob a designação de residência fixa, na Praia da Rocha em Portimão. Os possíveis interessados na leitura do meu trabalho poderão fazer o seu download sem quaisquer encargos.




sexta-feira, 16 de maio de 2014

ALJEZUR E O BUROCRACISMO HISTÓRICO. Uma estrada que levou séculos a ser construída, por causa da "serpente demoradora" no centralismo político.


A burocracia no nosso país tem origens que remontam à formação do espaço nacional, sensivelmente desde 1252, e que se agudizaria a partir do centralismo de D. João II até aos nossos dias. Com o estado absoluto e o autoritarismo régio, surgiu um fenómeno que, não sendo novo, tornar-se-ia insuportável: o adiamento, a prorrogação e a dilação dos prazos de consecução das obras públicas, especialmente nas regiões periféricas. O Algarve, nesse aspecto, era uma vítima endémica do isolamento e do esquecimento a que a sua extremada situação geográfica o condenava. Fartos de esperar pela construção de uma estrada, o povo de Aljezur aproveitou o retorno de D. Miguel à pátria-mãe, para através das costumeiras felicitações de júbilo, lembrar pela voz da sua autarquia, que desse uma prova da sua renovada autoridade, mandando cortar "o pescoso á serpente demoradora que tem engulido os Santos Papeis já informados com tanto dinheiro inutilmente gasto". Isto é, que acabasse com a burocracia e avançasse com os melhoramentos de que os povos e a pátria tanto careciam. O sentido de oportunidade político dos aljezurenses pede meças ao tempo presente. Aqui fica, transcrito na sua versão original e em primeira mão, o elucidativo documento. A razão dos numerosos dislates ortográficos deve-se certamente à parca instrução do escrivão.

[sumário: Ofício da Câmara de Aljezur solicitando a construção de uma estrada de ligação a Lagoa e Portimão, ao mesmo tempo  que felicita o regresso de D.Miguel]

«Serenissimo Senhor:
A Camara Nobreza e Povo da Villa de Aljezur, commarca de Lagos, Reyno do Algarve, dá Parabens asi mesmo pela Felis chegada de V. A. R. à Capital destes Reynos de Portugal: Fortuna tão desejada, e vem por este modo protestar seos votos de satisfação e Fedelidade.
Serenissimo Senhor:
Tomamos aqui lugar para expor a V.A.R. que tendo repetidos requerimentos para se fazerem as extradas que da dita vila vão para Lagos, capital da Comarca; e a de Vila Nova de Portimão, que ambas se podem fazer com hum conto de reis sendo bem economizados e aplicados por Pessoas zerlozas e entereçadas no bem publico: é moderada despeza comparada com o grande beneficio que rezulta por ser o unico tranzito por onde se podem conduzir Artilharias e carruagens quando persizão circular desta parte para todo o Algarve, e em tão comodidade aos habitantes.
Das repetidas suplicas que temos feito nada mais tem rezultado que informações e avaliações, vesturias de Engenheiros e outras deligencias cujos papeis se achão parados nas Tribunas sem que nos tenhamos noticia alguma deles; rezultando unicamente as despezas cresidas que se tem feito com os informantes os quaes somente estas bastavam para fazer pelo menos trez Legoas de boa Extrada; Pois com dezasseis mil reis se achão já prontas duas Leguas da dita extrada.
Serenissimo Senhor:
Corte V.A.R. o pescoso á serpente demoradora que tem engulido os Santos Papeis já informados com tanto dinheiro inutilmente gasto só em aparatoz.
Sabeçe sem informação que de extradas feitas rezulta utilidade; resta unicamente a V.A.R. mandar aos seos Ministros que sem demora fação rodar esta deligencia pelo expediente de suas obrigações, participandonos offiçiozamente para nos lhe deregirmos os exclarecimentos de que persizarem de forma que chegue a fazer-se as extradas pedidas com o Tributo dos Seriáis aplicados a este fim ou como a V.A.R. milher convier mandar.
Sirvaçe V.A.R. açeitar os nossos çinçeros e fiéis votos de obediencia e acudir ao que expomos como for do seo Real agrado.
Deos Guarde a V.A.R., Aljezur em Camara de 16 de Março de 1828.
O Juiz Presidente, Manoel Marreiro.»
(seguem-se os restantes elementos da vereação que, curiosamente, eram todos analfabetos)

ANTT, Ministério do Reino, Autos de Felicitações, Aclamações, Juramentos  e Outros, Maço 9, 1ª série, doc. nº 106.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Sociedade do Teatro Harmonia, de Faro, em 1827 - História do Teatro no Algarve

José Carlos Vilhena Mesquita

Ninguém sabe, ao certo, quando e onde se manifestou, publicamente e pela primeira vez, no Algarve a popular Arte de Talma. Suspeitamos que as artes cénicas, herdadas da colonização islâmica nunca se extinguiram no Algarve-Andaluz. E pelo menos desde o séc. XV subsistem inequívocas referências a certas representações jubilosas de carácter teatral, em honra de visitações régias ou de comitivas militares, que tinham por destino a conquista e manutenção das praças do Norte de África.
O assunto da primazia e ancestralidade do teatro no Algarve já mereceu a minha atenção em trabalho da especialidade (História do Teatro Lethes). Mas o que agora me traz a terreiro é dar a conhecer a existência em 1827 de uma casa de Teatro em Faro, com uma companhia residente denominada «Sociedade do Teatro Harmonia». As provas encontrei-as, há anos, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, na secção da Intendência Geral da Polícia, onde me deparei com um ofício do Sargento-mor das Ordenanças de Faro, o conhecido João Carlos de Mello Lobo Freire Pantoja, no qual informa que no teatro da cidade de Faro se representou a 30 de Dezembro de 1827 pela «Sociedade do Teatro Armonia (sic) um Entremez intitulado O Alardo na Aldêa» no qual se fazia «o mais manifesto e decidido escarneo da Coorporação de Ordenanças ou 3ª Linha do Exercito».
Convém explicar, que um Entremez é uma pequena composição dramática, de carácter jocoso e burlesco, mas de recorte moral, cujos actores encarnam figuras locais em flagrantes da vida real, que o público assistente conhece da sua vivência quotidiana. Em boa verdade é aquilo que antigamente se designava por farsa, cujas origens entroncam no teatro vicentino. O único senão é que o Entremez tem um alcance localista, desprovido de expressão nacional, sendo por isso considerado em teatro como uma peça menor. Representava-se nas grandes salas nacionais para entretenimento do público, antes das grandes peças ou no intervalo das mesmas.

Por outro lado, extrai-se deste ofício um pormenor muito importante, que é o da existência em 1827 de uma sala de espectáculos em Faro, com artistas locais, denominada «Sociedade do Teatro Harmonia». Por conseguinte existia na cidade, talvez desde o princípio da centúria, um equipamento vocacionado para a cultura, certamente para acolher representações cénicas e musicais. Em reforço dessa hipótese, impõe-se lembrar que em 1808, quando o Algarve se libertou do jugo napoleónico, publicou-se no ano seguinte uma peça de teatro intitulada «Restauração dos Algarves, ou Heroes de Faro e Olhão, Drama Historico em Tres Actos», da autoria de Luís de Sequeira Oliva, que foi certamente levada à cena em Faro. 
Curioso é também o facto do sargento-mor, Freire Pantoja, acrescentar no seu ofício, que o texto original do citado Entremez não refere o ano em que foi publicado, nem a tipografia em que foi impresso, o que o levava a suspeitar tratar-se de uma publicação clandestina. E se assim fosse tornava-se num caso de averiguação policial. Mas o que mais lhe desagradava era o facto de “serem os Theatros estabelecidos para servirem de Escholla onde os Povos aprendão as máximas bases da politica, da moral, do amor da Patria, do valor do zello e da fidelidade com que devem servir os Soberanos”.[1]
Este ofício é muito curioso e demonstra a importância e consideração em que se tinham as ordenanças de Faro. O Intendente Geral da Polícia despachou que, embora o sargento-mor tivesse razão, não dava quaisquer providências porque a peça já não estava em representação.
Todavia, encontrei um outro ofício do mesmo sargento-mor, Freire Pantoja, no qual refere que na noite de 18 de Fevereiro de 1828 voltou à cena o referido Entremez, solicitando que desta vez fossem tomadas medidas enérgicas. Face à reincidência o Intendente despachou que se mandassem proibir as representações.[2]
Suponho que o que mais preocupava o sargento-mor, Freire Pantoja, era o facto desta peça cómico-satírica, intitulada «Alardo na Aldeia», revelar uma inspiração contra-revolucionária de apoio às pretensões absolutistas propaladas pelo partido miguelista, que clandestinamente movia todas as sua influências, internas e externas, para voltar ao poder, como efectivamente aconteceria em 1828. Também o título do próprio Entremez, continha uma implícita crítica política e social às tropas de 3ª linha, as chamadas Ordenanças, pois que «Alardo» significava por um lado a revista anual das tropas, mas por outro lado, Alarde traduzia uma forma de gabarolice ou de fanfarrice, própria de quem se vangloria sem razão que o justifique. E esse era o espírito popular das Ordenanças, constituídas por antigos soldados em idade avançada, cuja missão consistia na defesa das populações locais, não só em caso de agressão militar, como ainda perante uma calamidade pública, nomeadamente cheias, terramotos, incêndios, surtos epidémicos, etc. Mas, na verdade, o seu valor militar era quase nulo, pois todos sabiam que não estavam preparados, nem equipados, para em caso de ataque enfrentarem as tropas inimigas.


[1] ANTT, Intendência Geral da Polícia, Correspondência dos Corregedores do Algarve e Juízes de Fora do Algarve, 1828, Maço 244, doc. nº 9.
[2] Idem, idem, doc. nº 53.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Fonseca Domingos, um progressista poeta do povo

No contexto da poesia algarvia do século XX, assume particular destaque a figura do poeta José Maria Fonseca Domingos, cuja obra apesar de não ser muito vasta foi bastante apreciada entre os seus pares. Homem íntegro e de forte personalidade, que sempre defendeu os valores da liberdade e do socialismo, correu o mundo, confrontou culturas, conheceu diferentes civilizações e vivenciou díspares organizações políticas. Regressou ao seu Algarve natal para viver os últimos anos de vida em convívio com alguns poetas farenses, para cuja consolidação ajudou a fundar, juntamente com Tito Olívio e Diamantino Barriga, a «Tertúlia Hélice», que apesar de todas as vicissitudes ainda subsiste. O texto que aqui se divulga corresponde à conferência que pronunciei em 18-02-2006, na cerimónia de homenagem póstuma realizada no auditório da Biblioteca Municipal Ramos Rosa, em Faro.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A última Armação do Atum - Arraial Ferreira Neto, em Tavira

As grandes armações do atum desapareceram do Algarve há quarenta anos, sendo que a última foi lançada em 1972, cujo resultado se saldou na captura de um único atum. Nunca mais se voltaria a armar essa grande e prodigiosa estrutura de pesca, que desde a colonização islâmica por aqui se designou por «Almadrava». A última campanha da pesca do atum, efectuada em 1968 pelo Arraial Ferreira Neto, em Tavira, foi seguida a par e passo pelo realizador Hélder Mendes, então ao serviço da RTP. Aqui deixamos o filme produzido com tanto sacrifico e dedicação, que é hoje um incontornável peça da 7.ª arte e um valioso testemunho da nossa etnografia marítima. Lembramos que Hélder Mendes filmou tudo quase sempre sozinho, apenas com uma pequena máquina de filmar "Bolex-Paillard", quase artesanal que funcionava dando-se-lhe corda manualmente, após filmar vinte e quatro segundos de imagens de cada vez. Por falta de meios financeiros da RTP a fita foi gravada a preto e branco, o que foi pena, pois podia ter-se guardado para a posteridade, com mais realismo e exactidão, um dos grandes momentos da História das Pescarias do Algarve. Impõe-se salientar o grande profissionalismo e sentido artístico de Hélder Mendes, que acompanhou durante cinco meses o sacrifício quotidiano dos marítimos algarvios, que se dedicavam à chamada «pesca rica», ou seja à captura do atum, que é hoje uma faina praticamente extinta. Acresce dizer que o documentário produzido e realizado por Hélder Mendes foi retransmitido na RTP, no programa «Bombordo», a 9-3-2002. É, como se pode aqui constatar, um pedaço da História do Algarve.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

A Pesca da Baleia no Algarve


José Carlos Vilhena Mesquita

A pesca da baleia no litoral algarvio foi, a par da pesca do coral, uma das primeiras a serem desactivadas, pertencendo por isso, e de há longa data, às chamadas “pescarias históricas”. Contudo, temos hoje plena certeza de que a sua efectividade nos mares do Algarve ascende a tempos muito remotos.
Cerro da Vila, povoação piscatória romana, em Vilamoura
Desde as colonizações fenícias, cartaginesas, grega, romana e árabe que existem provas arqueológicas, e até descrições narrativas, duma intensa actividade na captura de cetáceos para lá das portas de Hercules, ou seja, nas costas do Algarve-Andaluz. A sua importância económica foi, certamente, relevante. Por isso, a captura daquele cetáceo constitui um exemplo a reter na análise dos forais de Silves, Tavira, Faro e Loulé, visto que os citados monarcas reservavam para si os direitos da baleação.[1] Isto prova que a pesca da baleia continuava a processar-se com regularidade e, por certo, de forma bastante rendível, pois de contrário não teria sido alvo dos interesses da Coroa. Esta constatação serve também para evidenciar que, após a conquista do Algarve e a unificação do território nacional, continuou a incentivar-se a navegação de altura, cujo alcance se estendia pelo sudoeste atlântico, visto serem estes os domínios naturais da pesca da baleia.
Mas se aqueles forais dizem respeito às principais urbes do Algarve, poderia deduzir-se que este tipo de pesca se confinava aos centros mais populosos e habitados pelos antigos mareantes árabes, cuja experiência de alto mar justificaria o elevado rendimento do sector. Todavia, parece não ser assim. Os algarvios, do ponto de vista antropológico, são fruto da miscigenação de várias raças e culturas indo-europeias, que ao longo dos séculos se cruzaram na grande estrada mediterrâneo-atlântica. O seu legado foi muito vasto e a herança tecnológica ficou patente no aproveitamento dos recursos hidrológicos e na agricultura, na mineração e na metalurgia, nas indústrias da olaria e da cerâmica, na olivicultura, nos linifícios, nas cordoarias e espartos, na tecelagem e tinturaria, na vinicultura e alcoólase, nas artes decorativas, na música, na poesia, na arquitectura e em todas as circunstâncias dependentes do génio inventivo. Desta mesclagem genética resultou o espírito e o carácter do povo algarvio, inclinado para o desfrute e sabor da vida.
Não obstante a sua herança antropológica, o Algarve é essencialmente uma região marítima, com uma importância geo-estratégica incontornável. A sua configuração geográfica tornou-o, desde tempos imemoriais, num amplo cais de acostagem. Os algarvios são homens modelados pelo mar, pois que até nas pequenas povoações costeiras se desenvolveu desde sempre uma intensa actividade piscatória. E a baleia seria um dos seus alvos preferências. Repare-se nos forais de Castro Marim (tanto o de 1277 como o de 1282),
Foral de Aljezur, pergaminho original
Aljezur (1280), Cacela (1283) e Porches (1286), todos eles relativos a pequenos concelhos do litoral, nos quais os “direitos da baleação” se continuavam a reservar para o monarca.[2] E não cremos que D. Dinis, ao exarar esta cláusula nos citados forais, estivesse apenas a copiar uma determinação dos antigos diplomas de seu pai outorgados por volta de 1266, pois que, duas décadas decorridas, deve ter sido informado de que a pesca da baleia constituía uma actividade comum a todo o litoral algarvio. Nesta experiência da faina de alto mar consubstanciavam-se algumas das razões que explicam a presença do Algarve no contexto dos Descobrimentos.[3]
Muito embora a pesca da baleia fosse, em número de capturas, progressivamente diminuindo ao longo dos anos, registaram-se, contudo, algumas tentativas régias para a sua protecção e incremento económico. Insere-se, neste caso, o diploma de D. Afonso IV, datado de 28-9-1340, através do qual se arrendaram ao mercador Afonso Domingues todas as baleações do reino pelo espaço de seis anos. Durante este período a coroa forneceria àquele rendeiro 60 moios de trigo de Beja ou de Serpa e 64 alqueires das salinas de Faro, que se destinavam à conserva da baleia, ficando as famílias dos pescadores sob a protecção real.[4] Suponho que terá sido este o primeiro arrendamento da baleação do reino.
No Algarve os baleeiros mantinham-se em laboração durante todo o ano e apenas sujeitos aos respectivos tributos foraleiros. A importância desta pesca no comércio algarvio do século xv deve ter sido bastante significativa, nomeadamente nos anos de escassez de trigo, pois da sua permuta por carne e óleo de baleia dependia a sustentabilidade de muitas comunidades piscatórias:
 «No reinado do Senhor D. Afonso IV, era hum objecto mui attendivel da nossa industria nacional a Pescaria da Balêa feita nas costas do Algarve, porque de huma Carta de desaggravo daquelle soberano dirigida ao concelho de Tavira no 1.º de Setembro de 1352 consta que em Porto Novo morrião Balêas, e que vinhão almocreves carregallas para fóra a troco de trigo».[5]
Esta situação – permutação de pescado por trigo – vai repetir-se constantemente, sendo, por isso, um exemplo de economia de mercado, visto que os excedentes produtivos do Algarve, pelo seu valor e procura, eram transaccionados por mercadorias de primeira necessidade. Por outro lado, também se demonstra que a produção cerealífera no Algarve era, e foi sempre, deficitária.
Por conseguinte, as pescarias algarvias contribuíam para o crescimento das transacções comerciais e para o abastecimento do seu mercado interno, com especial acuidade nas épocas de crise agrícola.
Selo pendente do Rei D. Dinis
A intensidade do movimento comercial marítimo nos portos algarvios era de tal forma cobiçada pelo corso marroquino que tanto D. Dinis como D. Afonso IV proveram a vigilância destas águas com:
 «huma Esquadra de guarda-costa de três Galés e cinco navios grandes para protecção do Commercio maritimo, que era então grande, principalmente em pescarias, tanto das Provincias do Norte de Portugal, como do Algarve, das quaes se provia o Reino todo, e se exportavão grandes quantidades deste genero para os Paizes estrangeiros, dentro e fóra do Mediterrâneo».[6]
Entre as pescarias, que sustentavam o comércio internacional e os interesses dos empresários estrangeiros, integrava-se a da baleia, embora se notasse já uma sensível decadência no índice das capturas.
Como reflexo do desenvolvimento das pescarias, e sobretudo do comércio externo, era franco e notório, pelo menos desde o século XIV, que o porto de Tavira se distinguia claramente dos restantes:
 «admitia navios de alto bordo, o seu comércio era florescente e avantajado e só para ele havia mais de setenta navios de alto bordo, propriedade de seus habitantes, e que navegavam para diversos portos, além de um crescido número de embarcações costeiras e de pesca».[7]
Gravura de 1577 representando a pesca da baleia
Certamente, muitos desses navios de “alto bordo” caçavam a baleia de parceria com os de Lagos, que na época eram os principais centros da navegação do alto. Na verdade, «onde se fazia a maior baleação era na praia da Senhora da Luz, perto de Lagos, e Porto Novo, pouco distante de Tavira, a qual sustentava 70 barcos, além de muitas embarcações de alto bordo».[8]
Deveria ser intensa a procura deste cetáceo nas águas algarvias, especialmente na costa de Lagos, a cujos baleeiros se concederam certos privilégios em reconhecimento da importância económica dessas pescarias. Demonstra-o a carta de confirmação de D. Pedro I, datada de 29-3-1359, sobre os antigos privilégios dos “maiorais da baleação”, cujos pormenores não discrimina e, por isso, os desconhecemos. [9]
A pesca da baleia prolongou-se pelo reinado de D. Fernando e exercia-se tanto na costa do Algarve como nas do Alentejo e Estremadura.[10] Data dessa época uma carta Regia, de 20-11-1367, na qual aquele monarca ordena:
 «os almoxarifes de Lagos e Tavira dessem ao Bispo e Cabido da Sé de Silves, a cada um, uma carga de besta cavalar – dez arrobas – metade gorda e metade magra, por cada baleia ou cavalasso que morresse nas costas do Algarve por conhecença, como já seu pai e avô tinham feito».[11]
Gravura antiga de Cachalote, espécie muito comum
 nas águas dos Açores
O último testemunho comprovativo da permanência no Algarve da pesca da baleia, ainda que de forma esporádica, remonta ao reinado de D. João I, que, a 15-5-1386, deu ao seu anadel-mor dos besteiros, Estevão Vasques Filipe, as rendas e direitos da baleação de Lagos, acrescentadas das dízimas das mercadorias estrangeiras alfandegadas naquela vila.[12]
Deste breve apontamento se pode concluir que até ao final do reinado do Mestre de Avis os baleeiros lacobrigenses mantiveram-se ainda activos nas perseguições daquele cetáceo. As notícias que temos sobre este tipo de pescaria – exercida desde longa data no Algarve – não ultrapassam o século XIV, sendo de presumir que por essa altura as baleias se tenham afastado desta costa, pelo menos no número e intensidade de outrora, desactivando-se a partir daquela centúria a sua captura.


[1] Vide Alberto Iria, Descobrimentos Portugueses, 2 volumes, Lisboa, Instituto de Alta Cultura, 1956, Vol. II, Tomo I, p. 209.
[2] Idem, Idem, vol. II, Tomo I, p. 210.
[3] Cf. Idem, «A Tradição Marítima no Algarve anterior às navegações do século xv e depois ao serviço do Infante D. Henrique», in Las Ciencias, Madrid, Ano XI, n.º 3, p. 599 e ss.
[4] Idem, O Algarve e os Descobrimentos, vol. II, tomo I, pp. 214-215; Vide João Martins da Silva Marques, Descobrimentos Portugueses, vol. I, doc. 63, p. 64.
[5] Constantino Botelho de Lacerda Lobo, «Memoria sobre as Pescarias em Portugal», in Jornal de Coimbra, Lisboa, 1812, p. 82.
[6] Inácio da Costa Quintela, Annaes da Marinha Portugueza, tomo I, Lisboa, 1839, pp. 21-22.
[7] Damião Augusto de Brito Vasconcelos, Noticias Históricas de Tavira (1242-1840), Lisboa, Liv. Lusitana, 1937, p. 121.
[8] Idem, Idem, p. 139.
[9] ANTT, Chancelaria de D. Pedro I, Liv. 1.º, fl. 35 v.º; apud João Martins da Silva Marques, op. cit., vol. I, doc. 92, p. 110.
[10] Cf. Constantino Botelho de Lacerda Lobo, op. cit., p. 82.
[11] Damião A. B. Vasconcelos, op. cit., p. 139; Vide Alberto Iria, op. cit., vol. II, tomo I, p. 218.
[12] ANTT, Chancelaria de D. João I, Livro 2.º, fl. 27 v.º; vide J. M. Silva Marques, op. cit., Suplemento ao vol. I, doc. 49, p. 68.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Em memória do meu colega e amigo António Rosa Mendes

Morreu o historiador António Rosa Mendes. Calou-se para sempre a voz da eloquência algarvia, o verbo da mediação cívica e da desinteressada ação política, que tudo fez para engrandecer a sua pátria natal. Foi um cidadão exemplar, humilde e desprovido de vaidades, que soube granjear o respeito dos seus conterrâneos e admiração pelos seus colegas e alunos. Acima de tudo foi um homem íntegro, desprendido de interesses, com um forte caráter e de princípios éticos que serviram de exemplo a todos os que o conheceram ou com ele conviveram. Como humanista e homem de cultura, deixou uma vincada imagem de erudição, atestada na vasta obra legada em livro, mas também nas conferências que pronunciou e nos congressos e colóquios, nacionais e internacionais, em que participou. Deixou-nos na memória a recordação do académico competente e do historiador proficiente, do jurista impoluto e do editor mecenas. Mas também guardamos dele o acrisolado amor regionalista e a convicção algarviísta que a todos compete imitar.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Evocação da saudosa memória da poetisa Quina Faleiro

     No passado dia 25 de Maio tive o grato prazer de assistir à inauguração da Praceta Joaquina Faleiro, uma brilhante poetisa de quem tive o grato prazer de ser amigo. A cerimónia teve muita dignidade e alguma emoção, transmitida pelos familiares e amigos que nela estiveram presentes. Embora sem a pompa e circunstância de outros eventos, o certo é que a presença do presidente da edilidade  engº Macário Correia, bem como de toda a vereação e de alguns deputados municipais, conferiu àquela singela cerimónia um comovente momento de reflexão e de evocação poética. O Presidente Macário Correio teve a gentileza de proferir um breve discurso, com palavras de muito apreço e de sentida admiração, após o que, em parceria com a nora da homenageada, descerrou a placa toponímica.
     Como a Quina Faleiro (era assim que fraternalmente a tratávamos, e foi esse o seu nome literário que adoptou) possuía um enorme talento para a poesia, lembraram-se os seus companheiros da Tertúlia Hélice de evocar a sua memória através da leitura de alguns dos seus sonetos, extraídos do livro que publicou em vida, «Choram Meus Dedos», mas também da obra editada postumamente pela AJEA Edições com o titulo «Viagem dos Sentidos». Foi uma breve e efusiva homenagem cultural, à qual o presidente e a comitiva autárquica emprestou o carácter oficial da sua presença. A comitiva partiu para outros eventos que nesse dia tiveram igualmente lugar, incluídos num vasto programa de inaugurações com o qual a vereação de Macário Correia pretende demonstrar a eficácia da sua administração.
    Acima de tudo foi um belo momento de convívio cultural, debaixo de um radioso sol primaveril, durante o qual nos lembramos com imensa saudade da Quina, mas também de outros amigos, poetas, escritores e artistas, que faziam parte da AJEA e entretanto nos deixaram, mas dos quais nunca nos esqueceremos.
    Para evocar a saudosa memória da poetisa Quina Faleiro aqui deixo, para reflexão pública, o texto que escrevi para a sessão de homenagem póstuma que a AJEA lhe prestou, a 11-3-2006, no auditório da Biblioteca Municipal de Faro, onde estiveram presentes numerosos amigos, poetas e admiradores, para além de representantes da autarquia e do Governo Civil.